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Habitat PDF Print E-mail
Written by Administrator   
Jun 22, 2004 at 07:56 PM

Falemos sobre a casa do achigã, ou seja, sobre o seu habitat. Apesar de se poder considerar o habitat global dos achigãs de uma determinada albufeira toda a massa de água, existem, geralmente, habitats mais pequenos (as divisões de uma casa) que podem ser preferidos, evitados ou, nem uma coisa nem outra. O conhecimento da utilização do espaço "albufeira" pelo achigã é obviamente vital para a sua gestão bem como para a sua pesca.

Este artigo baseia-se na descrição de um excelente estudo realizado numa albufeira americana do Arkansas, a albufeira Wedington. Este trabalho, realizado por Cynthia Annet e colegas (1996), estudou a utilização do habitat por achigãs de diversas idades (juvenis, adultos não reprodutores e adultos em postura) e durante diferentes alturas do ano, tendo utilizado como método de amostragem o mergulho. Até à altura da realização dete estudo (1996) vários trabalhos tinham sido conduzidos acerca do uso e selecção de habitat pelo achigã em albufeiras, nomeadamente através do uso de telemetria (trabalhos que serão referidos em próximo artigo), o que no entanto os limitou ao estudo de exemplares de dimensões grandes (> 1kg), devido à necessidade dos peixes suportarem os transmissores actualmente existentes. Além do mais, devido ao custo deste material, o número de peixes seguidos (estudados) não foi muito elevado, pelo que pode ter induzido erros na procura de comportamentos médios.

Annet e colaboradores, consideraram a albufeira em estudo (com 41 ha) dividida nos seguintes habitats (divisões):

1. troncos (com diâmetro > 15 cm)submersos em posição horizontal,
2. troncos submersos em posição vertical,
3. restos lenhosos (mato, paus, pequenos ramos),
4.acumulações de folhas,
5. vegetação aquática e
6. calhau e rocha.

Convém agora referir algo sobre a selecção de habitat. Um indivíduo (ou conjunto de indivíduos) seleciona algo (habitat, comida, etc..) se o utiliza numa proporção diferente da disponível. Se utilizar numa proporção maior está a preferir, se utilizar numa proporção menor está a evitar. Se utilizar em igual proporção demonstra indiferença.

Geralmente utilizam-se índices de selecção que basicamente determinam a diferença entre a utilização (Uti) e a disponibilidade (Dispo) de determinado factor, ou seja, Selecção (S) = Uti-Dispo.

Assim, para valores de S = 0, não há preferência, para valores de S entre 0 e um valor máximo (no nosso caso +100), pode haver preferência (tanto maior quanto mais próximo de +100), enquanto para S entre 0 e um valor mínimo (no nosso caso –100) pode haver selecção negativa. Segue-se um exemplo hipotético para clarificar a análise da selecção.

Se um achigã utilizar só habitats com vegetação submersa e a albufeira tiver 50% da sua área total ocupada com este tipo de habitat, teriamos, em termos de selecção, que: S para o habitat vegetal = 100% (ou seja a proporção do habitat vegetal utilizado pelo achigã) - 50% (o habitat vegetal disponível na albufeira) = +50. Ou seja, o achigã estaria claramente a preferir habitats com plantas aquáticas.

No quadro apresentado pode ver-se a % dos vários tipos de habitat disponiveis na albufeira de Wedington, bem como a % desses tipos utilizados pelos achigãs de diferentes idades. Note-se que a soma de todas as % dos tipos de habitat não totaliza 100%, já que algumas combinações de habitat raras ou pouco utilizadas pelo achigã não são inseridas no quadro.

Categorias
% disponível
% utilizada por juvenis
% utilizada por adultos
% utilizada por adultos em postura
Troncos Horizontais
7
8
7
46
Troncos Verticais
2
0
1
4
Restos Lenhosos
9
13
10
7
Vegetação Aquática
10
24
30
4
Rochas
2
8
<1
9
Sem Estruturas
38
0
19
6

Da análise dos dados apresentados vários factos saltam à vista. Todas as classes apresentam preferência por algum tipo de estrutura, já que utilizam em muito menor proporção do que a disponível áreas sem estrutura. Por exemplo, os juvenís nunca são vistos em zonas sem estrutura apesar desta representar 38% da área disponivel na albufeira. Os adultos, apesar de tudo, parecem ser menos "agarradinhos" à estrutura, já que a diferença entre Uti e Dispo para o habitat sem estrutura é de –19 (contra os –38 dos juvenís). De todos os tipos de estrutura disponível os juvenís pareceram preferir claramente a vegetação aquática (S = +14), utilizando o resto dos habitats em proporções muito próximas da sua disponibilidade. Em relação aos exemplares adultos que não estão em postura o panorama mantêm-se mais ou menos inalterado, aumentando ainda mais a preferência pela vegetação aquática S= +20.

Os achigãs na postura apresentaram alterações claras no sua utilização do habitat. Os troncos submersos horizontais passaram então a ser os habitats preferidos, S = +39, reduzindo-se a preferência pela vegetação aquática e aumentando a repulsa por zonas sem estrutura, S = -32.

Entre outras coisas este trabalho veio confirmar vários aspectos do comportamento do achigã apreendidos desde há muitos anos pela experiência dos pescadores desportivos. Nomeadamente a preferência por habitats com estrutura, com a vegetação aquática à cabeça das preferências, e a alteração do tipo de estrutura utilizado com a idade do achigã, em particular com o período de desova, em que os troncos horizontais submersos passam a ter grande atractividade.

Bibliografia

Annet, C., Hunt, J. e Dibble, E.D. (1996). The compleat bass: habitat use patterns of all stages of the life cycle of largemouth bass. Em: Multidimensional Approaches to Reservoir Fisheries Management (Miranda, L.E. e DeVries, D.R., editores): páginas 306-314. American Fisheries Society Symposium 16